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NO ARQUIPÉLAGO Pescadoras 'mostram' que mar não é só para homens

Fátima Garcia não esconde o “orgulho” de pertencer ao grupo de cerca de 200 mulheres açorianas que, por opção de vida, são pescadoras, contrariando a ideia de que o mar é só para homens.

“Há 20 anos que ando no mar e tenho cédula marítima há 10 anos”, revelou esta pescadora de 40 anos, que falava à Lusa no Faial, no regresso de mais um dia de faina.

Fátima Garcia chegou a trabalhar numa fábrica de peixe e na restauração, mas o negócio familiar ligado à pesca nunca a deixou perder a ligação ao mar.

“Quando trabalhava na restauração intercalava com a vida do mar, porque ia com o meu marido, que é armador”, afirmou, acrescentando que já há alguns anos que os dois partilham a mesma profissão.

“Homens e mulheres têm capacidade para a pesca”, defendeu Fátima Garcia, que nem admite abandonar esta actividade, que a obriga a passar dias consecutivos no mar.

Nessas alturas, Fátima Garcia prepara antecipadamente as longas ausências no mar, até porque deixa dois filhos em casa

“Quando vou para o mar organizo as comidas e roupas para os meus filhos, de 10 e 15 anos”, afirmou, salientando que, durante a ausência dos pais, as crianças ficam ao cuidado de uma senhora.

Fátima e o marido chegam a passar “seis a sete dias no mar” na pesca de goraz, cherne e lula, a bordo da sua embarcação com cerca de oito metros.

“Hoje é cada vez mais difícil arranjar mão-de-obra para a pesca, principalmente no Faial”, lamentou Fátima Garcia, que preside à Associação de Mulheres na Pesca nos Açores - Ilhas em Rede.

Uma das associadas é Ana Isabel Belerique, apesar de ter abandonado a pesca em 2003, não por vontade própria, mas devido à doença de um familiar.

“Casei-me com um pescador, o meu bisavó era pescador, o mar sempre foi a minha paixão”, afirmou, assegurando que, “se pudesse, voltava a escolher a profissão”, que a obrigava a começar todos os dias a trabalhar muito cedo.

Ana Isabel frisou que “o trabalho da mulher na pesca é imprescindível”, recordando a importância da “preparação das gamelas, que é feita exclusivamente por mulheres”.

Por isso, defendeu a necessidade de “valorizar a mão-de-obra feminina na pesca”, um objectivo que não esquece na sua actividade como responsável pela Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira.

“Nos anos 80, quando o esforço de pesca aumentou, as mulheres começaram a ajudar os maridos, mas quando lhes perguntavam se trabalhavam na pesca diziam que eram domésticas”, recordou.

Para que esta situação não se repita, Ana Isabel defende que “é preciso valorizar o trabalho da mulher na pesca”.





Associação quer dar "visibilidade"





A Associação de Mulheres na Pesca nos Açores – Ilhas em Rede foi criada em 2008 para “dar visibilidade” ao trabalho das mulheres que exercem esta profissão no arquipélago e mostrar não se trata de um trabalho apenas para homens.

“A associação foi criada porque a actividade da mulher na pesca não é muito visível, apesar de existirem mulheres pescadoras, armadoras e a preparar as artes”, afirmou Fátima Garcia, presidente da instituição, em declarações à Lusa.

Um estudo realizado há cerca de dois anos pela UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) identificou 190 mulheres a trabalhar na pesca nos Açores, nas ilhas de S. Miguel, Terceira, Pico, Graciosa, S. Jorge, Flores, Graciosa e Santa Maria.

Estas mulheres pescadoras, além de irem regularmente para o mar, dedicam-se ainda à preparação das artes (gamelas, cofres, redes), ao trabalho logístico (carga e descarga do peixe, gasolina, gelo, limpeza e venda do peixe do barco próprio) e ainda a actividades administrativas em terra.

"Nem sempre as mulheres pescadoras são reconhecidas pelos homens como trabalhadoras da pesca", salientou Fátima Garcia, que insistiu na necessidade de se mudarem as mentalidades nesta área.

A presidente da Associação de Mulheres de Pesca nos Açores reconheceu, no entanto, que já é "visível" uma alteração no sentido de reconhecer o papel das mulheres, apesar de ainda existirem "algumas dificuldades", por ser uma profissão que é considerada "tipicamente masculina".

As dificuldades que enfrentam as mulheres pescadoras vão estar em debate, a 25 de Fevereiro, no Faial, na assembleia-geral da associação, onde também se analisará o problema da formação destas profissionais da pesca.

08/02/2010 - 11:02

Fonte: A União (http://www.auniao.com)

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